home

search

Capítulo 17: Dos Frutos Nós Caímos

  Os sinos da Catedral tocaram duas vezes por toda Edel-Füllhorn antes de cessarem por completo.

  E quando pararam, o silêncio que se instaurou n?o foi vazio — foi pesado de expectativa.

  Era o tipo de quietude que só existe às vésperas de algo irreversível. Como o último f?lego antes de um voto, uma lamina, ou um erro.

  A chuva havia acabado de passar. O ch?o de pedra ainda brilhava sob a luz do meio-dia, e o ar carregava um cheiro limpo e terroso. Como se os próprios céus tivessem lavado a cidade em prepara??o para o que estava por vir.

  Os convidados atravessavam o arco da entrada, adornado com rosas brancas e douradas, suas pétalas ainda úmidas. O som distante dos músicos afinando os instrumentos ecoava pelo interior da Catedral, lembrando a todos — de forma solene demais para ser ignorada — que duas vidas estavam prestes a se entrela?ar.

  Uma uni?o que n?o dizia respeito apenas a duas pessoas, mas a Edel-Füllhorn inteira.

  Por dentro, a Catedral era ainda mais imponente do que sua fachada prometia.

  O teto se erguia t?o alto que parecia possuir sua própria atmosfera, engolindo sons e pensamentos. Cada centímetro de pedra havia sido esculpido com obsess?o quase devocional — um testamento deixado por gera??es de artes?os que, ao longo de séculos, entregaram sangue, suor e fé àquele lugar.

  No alto, um enorme afresco em espiral dominava o teto, narrando a história da cidade segundo o Dreizaschrift, a escritura sagrada de Axis. Da Vis?o do Profeta à reuni?o dos Apóstolos. Da Grande Peregrina??o à funda??o de Edel-Füllhorn pelas m?os de S?o Arborirch.

  Os assentos formavam um amplo semicírculo, cortado por um longo tapete dourado que ligava a entrada ao altar. Ali erguia-se a estátua do santo fundador, uma m?o segurando um p?o, a outra uma espada — sustento e violência em perfeito equilíbrio.

  Atrás dela, um grande vitral retratava a Serpente Prateada em posi??o circular, sua luz colorida envolvendo a estátua como uma auréola viva.

  Na base do altar, esculpido em prata antiga, repousava o lema da cidade:

  “DOS FRUTOS, NóS CRESCEMOS.”

  Para muitos, era apenas mais um evento social.

  Para outros, uma oportunidade de marcar presen?a e comer bem.

  Para alguns poucos, um dia de orgulho genuíno — a alegria silenciosa de ver alguém querido se comprometer.

  E para Micah…

  Era o dia em que ele ficaria de guarda do amanhecer ao entardecer, sob o sol quente, com um capacete que parecia cozinhar seus miolos.

  O desjejum e o treinamento matinal foram breves. A escala, simples:

  Dennisorfeu e Asáimon rondavam os arredores da Catedral;

  Micah e Bartkuma guardavam a entrada;

  Felipa e Thonathaniel protegiam o interior;

  E Lysandre cuidava dos aposentos dos convidados.

  Ou pelo menos era o que a papelada dizia.

  ...

  Noite passada.

  O escritório de vigília estava quase às escuras, iluminado apenas pela chama baixa de uma lamparina de óleo e pela luz pálida da lua que entrava pela janela estreita.

  Lysandre encostava-se na parede, bra?os cruzados, uma perna apoiada atrás da outra. à primeira vista, parecia relaxada. Mas os olhos n?o paravam. Seguiam o movimento da chama. As sombras nas prateleiras. O som distante da cidade se preparando para dormir.

  Reblis estava de frente pra ela, diante da mesa abarrotada de documentos, mapas e selos de cera quebrados. N?o escrevia. N?o lia. Apenas observava um único papel amarelado, estendido à frente dele, como se fosse uma ferida aberta.

  — Amanh? — disse ele, sem levantar seu olhar — Edel-Füllhorn vai estar cheia demais para erros.

  Lysandre arqueou uma sobrancelha.

  — Casamentos costumam ser assim.

  Reblis soltou um meio sorriso sem humor.

  — Preciso dos seus talentos emprestado.

  Ele finalmente se virou. O rosto estava cansado, mas os olhos… atentos demais.

  — Os rumores come?aram cedo. E come?aram certos demais.

  Lysandre descruzou os bra?os.

  — Certos ou bem plantados?

  — Essa é exatamente a quest?o.

  Ele caminhou até a janela, olhando para o pátio interno da Cidadela, onde guardas trocavam turnos sob tochas acesas.

  — Se alguém quiser derrubar Wanderson, amanh? é o dia perfeito. — continuou. — Testemunhas demais para negar. Caos demais para rastrear.

  Lysandre inclinou a cabe?a.

  — E onde eu entro nisso?

  Reblis a encarou diretamente agora.

  Ele puxou um pequeno mapa da Catedral e dos aposentos anexos, deslizando-o sobre a mesa.

  — Durante a cerim?nia, você n?o vai cuidar dos convidados. — disse. — Vai até os aposentos privados do Duque.

  Lysandre n?o reagiu de imediato.

  — O quarto dele.

  — Exato.

  Ela respirou fundo, sentindo o peso implícito na ordem.

  — Isso já é uma investiga??o formal?

  — Ainda n?o. — respondeu Reblis. — é uma precau??o.

  Mentira educada. Eles dois sabiam.

  — Quero saber se há algo lá que n?o deveria estar. — continuou ele. — Documentos, símbolos, correspondências. Qualquer coisa que possa ser usada… ou forjada.

  Lysandre passou a língua pelos dentes, pensativa.

  — E se eu encontrar algo?

  — Você n?o toca em nada. — disse ele, seco. — Você observa. Lê rastros. E vem direto a mim.

  Ela deu um meio sorriso torto.

  — Mesmo se os rastros gritarem?

  — Especialmente se gritarem.

  Houve uma pausa.

  — E Gunther? — ela perguntou, casual demais para ser inocente.

  O maxilar de Reblis se contraiu por um instante.

  — Gunther é um soldado. — disse ele. — E soldados erram. Ou mentem. Ou s?o usados.

  Lysandre assentiu devagar.

  — Entendi.

  Ela se afastou da parede e come?ou a caminhar em dire??o à porta.

  Reblis ficou sozinho outra vez.

  O papel sobre a mesa tremulou com a corrente de ar.

  No topo dele, um selo quebrado.

  E abaixo, um nome que n?o deveria estar ali.

  ...

  Bartkuma continuava encarando Micah de relance. Mas isso n?o importava, o ruivo mal tinha tempo de tirar os olhos da lista de convidados, e dos rostos intitulados que o viam seu cabelo como desculpa para tratá-lo como escravo.

  Os assentos logo se encheram com nobres e militares de alto escal?o. Na primeira fileira estava a família real, que consistia de uma m?e idosa e emocionada, alguns tios desinteressados, e primos de infancia que punham a conversa em dia com o Wanderson.

  O Rei n?o apareceu.

  Unauthorized usage: this tale is on Amazon without the author's consent. Report any sightings.

  Mas o que seria mais importante do que o casamento do próprio irm?o?

  De qualquer forma, a cerim?nia seguiria. O bispo se preparava em frente ao santo, vestindo uma mistura de vermelho e prata.

  O Duque foi ao altar logo em seguida, ajustando o terno dourado com um gesto ensaiado demais para parecer natural. O tecido refletia a luz que atravessava o vitral atrás da estátua de S?o Arborirch, tingindo-o de tons prateados e verdes conforme avan?ava pelo tapete cerimonial.

  Houve um murmúrio contido entre os convidados.

  Wanderson n?o era um governante no sentido clássico. Na verdade, sequer desejou tal papel. Ele nunca procurou poder ou influência, sempre foi um homem simples, apreciador de festas, comida boa e sexo, o epítome do hedonismo.

  Sem personalidade, sem profundidade, sem vontade.

  Apenas nasceu em ber?o de ouro. E com o tempo aprendeu a abra?ar a persona certa.

  Agora busca uma esposa, como se isso fosse mudar algo.

  Ele parou ao lado do altar, virou-se para a assembleia e inclinou a cabe?a em cumprimento breve. Nada teatral. Nada exagerado. Como se aquilo fosse apenas mais um ponto de passagem.

  Micah acompanhava tudo da entrada, o corpo rígido dentro da armadura. O capacete abafava os sons, mas n?o o peso do momento. Ele sentia o suor escorrer pela nuca, misturado à estranha sensa??o de estar em um lugar que n?o lhe pertencia.

  Bartkuma permanecia imóvel ao seu lado, m?os apoiadas no cabo da espada, os olhos varrendo o interior da Catedral com a mesma aten??o fria de sempre. N?o parecia interessado na cerim?nia — apenas no que poderia quebrá-la.

  Os músicos come?aram.

  As portas laterais se abriram.

  Rebbeka entrou.

  O som foi imediato, quase involuntário: um suspiro coletivo, contido, como se a Catedral tivesse inspirado ao mesmo tempo.

  Ela usava um vestido branco com fios dourados discretos, nada excessivo, mas cuidadosamente pensado para parecer simples. Reblis à acompanhava, símbolo de seu apoio e aprova??o às decis?es da irm?. O véu translúcido deixava entrever seus olhos atentos demais para uma noiva prestes a se unir.

  Felipa, posicionada mais à frente, percebeu antes dos outros.

  N?o era nervosismo.

  Era cálculo.

  Rebbeka caminhava com passos firmes, o rosto sereno, mas o olhar… o olhar fugia por instantes do Duque, desviando para as colunas laterais, para os bancos mais afastados, para lugares onde n?o deveria haver nada de interessante.

  Lysandre n?o estava ali para ver isso.

  Ela já se movia pelos corredores internos, invisível à cerim?nia, seguindo rastros que n?o pertenciam ao presente, mas que gritavam mesmo assim.

  No altar, Wanderson observava Rebbeka se aproximar.

  Por um instante — breve demais para que alguém além dele percebesse — seus olhos se suavizaram. N?o em amor. Mas em alívio. Como quem finalmente chega ao fim de uma longa caminhada.

  Ela parou diante dele.

  O bispo ergueu as m?os, e os músicos silenciaram.

  Ele deu um passo à frente, erguendo o Dreizaschrift com ambas as m?os. Sua voz ecoou pelas paredes altas, amplificada n?o por magia, mas pela arquitetura feita para engolir e devolver palavras como dogmas.

  — Reunimo-nos hoje sob o olhar de Axis… — come?ou — …para testemunhar um nó que n?o é apenas de carne, mas de destino.

  A luz do vitral atrás do altar mudou.

  Micah sentiu antes de ver.

  Um arrepio atravessou-lhe a espinha, como se o ar tivesse ficado mais denso, mais pesado. Bartkuma franziu levemente o cenho, os dedos se ajustando no cabo da espada.

  Felipa prendeu a respira??o por reflexo.

  A Serpente Prateada no vitral parecia… diferente. As cores vibravam com intensidade demais para o sol daquele horário. O círculo da cauda refletia a luz em angulos estranhos, projetando sombras que n?o combinavam com o desenho original.

  — …vocês vêm aqui unir seus caminhos— continuava o bispo, alheio.

  Rebbeka piscou.

  Seus olhos se moveram, rápidos, para trás da estátua.

  Wanderson percebeu.

  — Rebbeka? — murmurou, baixo demais para os outros ouvirem.

  Ela n?o respondeu.

  O som veio como um estalo seco.

  Crack.

  Uma fissura surgiu no vitral, cortando o corpo da Serpente do centro para a borda. O som ecoou pela Catedral como um trov?o contido.

  Micah deu um passo à frente sem perceber.

  — Guarda! — alguém murmurou entre os bancos.

  Crack.

  Outra rachadura.

  A luz explodiu em cores desordenadas.

  O bispo interrompeu a fala, erguendo o olhar.

  E ent?o, com um estrondo que engoliu todos os sons ao redor—

  O vitral se partiu.

  Os convidados gritaram, se protegendo dos cacos que voavam para todas as dire??es.

  Eles levantaram o olhar.

  Foi ent?o que todos viram a figura responsável.

  Levitando no ar como um fantasma em estágio probatório, estava alguém vestindo branco dos pés à cabe?a, n?o deixando um único centímetro de pele passar. Ele usava pesadas manoplas de a?o, seu corpo coberto por um longo manto com capuz, além de uma máscara Bauta que escondia sua face.

  Por um instante tudo ficou inerte.

  — é o-o—

  — é O CAPUZ ESCARLATE!

  E o caos se instaurou.

  As pessoas correram em panico, derrubando os bancos e pisoteando umas às outras como gazelas fugindo de um le?o.

  O mascarado pousou sobre o bispo com um peso impossível, esmagando-o e espirrando seu sangue por todo o altar. Ele esfregou a sola de suas botas sobre o cadáver, como quem esmaga uma barata.

  O assassino olhou para os noivos amedrontados e cobertos de sangue do sacerdote. Eles se abra?avam contra a parede, Rebbeka chegava à chorar de medo.

  No entanto, ele os ignorou, avan?ando em Felipa com uma ferocidade quase animalesca.

  Ela segurou a respira??o.

  O Capuz Escarlate parou em seu caminho, recuando alguns metros dela.

  Felipa parecia surpresa, ainda mantendo seu ar preso.

  — Como ele sabe disso...? — Enfatizou Thona, empunhando seu novo martelo.

  — Bem, que seja! — Ele lan?ou o martelo no invasor.

  Assim que o mascarado percebeu o ataque ele agarrou um dos primos do Duque, usando-o como escudo humano.

  O martelo parou no meio do ar, voltando a m?o de Thona como se atraído por im?, fazendo-o cambalear pra trás com a for?a.

  — Merda.

  O primo do Duque caiu no ch?o como um saco de ossos frouxos, vivo por um capricho momentaneo do assassino.

  O Capuz Escarlate inclinou levemente a cabe?a, como se avaliasse a cena inteira — n?o pessoas, n?o rostos, mas vetores. Distancias. Alturas. ?ngulos.

  Foi ent?o que ele parou.

  N?o por medo.

  Por reconhecimento.

  — Afaste-se do altar. — a voz veio de trás das colunas, calma demais para o caos ao redor.

  O Capuz virou-se lentamente.

  Reblis caminhava para o centro da sala, o florete em m?os, a lamina fina refletindo os cacos coloridos do vitral espalhados pelo ch?o. Seu passo n?o tinha pressa. Nem hesita??o.

  Quando deu mais dois passos, ele deixou de ser um.

  Dois.

  Quatro.

  Oito.

  Reblis ocupava a Catedral inteira como um reflexo quebrado. Cada um com postura idêntica. Cada um real demais para ser ignorado.

  Micah sentiu o est?mago afundar.

  — Clones…? — murmurou Micah entre os guardas.

  — N?o. — Bartkuma respondeu, a mandíbula travada enquanto ajudava os convidados à fugirem. — Todos s?o ele.

  O Capuz Escarlate avan?ou primeiro.

  Ele se lan?ou para frente como um projétil humano, o ch?o de pedra estalando sob o impacto do impulso. Um dos Reblis foi atravessado pelo punho do mascarado — e se desfez em luz, dissipando-se como um erro corrigido pela realidade.

  Outro clone atacou pela lateral, o florete buscando a axila exposta.

  O Capuz girou o corpo e agarrou a lamina com a m?o.

  O metal gritou, deixando faíscas ao raspar contra a manopla.

  Por um segundo, parecia que ele havia vencido a troca.

  Ent?o o Reblis que segurava o florete se solidificou demais. Como uma camera focando, todos os outros clones se juntaram de uma vez naquele espa?o, resultando em uma onda de choque que lan?ou tudo pra longe.

  O impacto correu pelo bra?o do invasor, e sangue escuro manchou sua manga, respingando no mármore.

  Voou pelo ar, tentou amortecer o impacto com a levita??o, flutuando de costas até bater contra uma coluna.

  — Interessante. — murmurou, a voz abafada pela máscara.

  As colunas come?aram a ceder.

  O Capuz arrancou um bloco inteiro de pedra da base da Catedral e o arremessou com for?a suficiente para atravessar três Reblis de uma vez.

  Dois desapareceram.

  O terceiro n?o.

  O impacto fez Reblis deslizar metros pelo ch?o, o ombro estalando de forma errada. O sangue era real demais.

  — Ele colapsou. — sussurrou Felipa. — Esse é o estado verdadeiro.

  O mascarado percebeu no mesmo instante.

  Ele sorriu por trás da máscara.

  Veio como uma queda de meteoro.

  Assim que todos saíram, Bartkuma enfiou sua espada no ch?o de mármore.

  Seus olhos brilharam por um instante, quatro peda?os de giz materializaram-se nos cantos da sala. Em uma fra??o de segundo, eles desenharam arestas por todo o espa?o, prendendo tudo em um único cubo.

  — Aqui, ninguém voará. — Disse ele, sua voz ecoando de forma impossível pelo lugar.

  O invasor ent?o perdeu controle de seu voo, caindo no ch?o como uma águia de asas quebradas.

  Reblis aproveitou o momento, ele ergueu o florete com dificuldade — e ent?o se multiplicou de novo, for?ando o estado a se dispersar antes do impacto final.

  O Capuz se levantou com dificuldade seu bra?o esquerdo quebrado.

  O Paladino atacava agora de todos os angulos possíveis, cada estocada precisa demais para ser ignorada. Algumas laminas atravessavam o Capuz — e ricocheteavam, desviadas por for?a bruta ou por um movimento no ar impossível de acompanhar.

  Outras deixavam marcas.

  Cortes.

  Perfura??es.

  Fendas que n?o fechavam rápido o suficiente.

  O homem de branco respondeu arrancando bancos do ch?o e girando-os como armas improvisadas, esmagando clones por pura satura??o. Cada golpe era um teste de probabilidade.

  Até que ele acertou o tempo.

  Agarrou um Reblis pelo pesco?o no ar — e o manteve firme.

  Esse n?o desapareceu.

  O Capit?o engasgou, os pés se debatendo no vazio.

  Todos os outros congelaram por um microssegundo imperceptível.

  Erro.

  O invasor girou com Reblis, o lan?ando fora do espa?o limitado pelo vitral quebrado. Ent?o se preparou, e pulou com uma for?a que arrebentou o ch?o de mármore como barro seco.

  Ele agarrou a garganta de Reblis novamente no ar exterior.

  O Capuz usou o corpo suspenso como ancora e se impulsionou, arremessando-o contra a estátua de S?o Arborirch e atravessando o sal?o com eles.

  A espada de pedra quebrou.

  O corpo também.

  Eles pousaram em uma parede da Cidadela.

  Sangue espalhou-se entre os cacos do vitral e os tijolos de pedra.

  O silêncio que se seguiu foi curto.

  O Capuz Escarlate se ergueu diante dele, levantando-o pelo colarinho.

  — Ent?o você sangra. — disse.

  Reblis sorriu, os dentes vermelhos.

  — Só quando vale a pena.

  E ent?o, com o último fio de controle, ele empurrou o estado quantico restante… n?o para si.

  Mas para o ch?o sob os pés do Capuz.

  A pedra deixou de concordar consigo mesma.

  O piso colapsou num estalo seco, e o mascarado caiu pelas catacumbas inundadas.

  Reblis escapou rolando, o florete cravado no ch?o para se erguer.

  E o Capuz voou fora do subsolo e parou no ar, seu sangue se misturando com a água suja e pingando sobre o ch?o.

  Eles se encararam.

  Dois predadores.

  Um usando o mundo como arma.

  O outro usando a própria existência como risco.

  E a Catedral, ferida, parecia observar — consciente de que aquele n?o era o fim.

  O Capuz Escarlate entrou em combust?o do ar, imóvel. Em segundos virou cinzas e foi soprado pelo vento, deixando apenas sua máscara e manto ensanguentado para trás.

  Sua marca registrada.

  Mas, pela primeira vez, encharcadas com seu próprio escarlate.

  Micah se aproximou do Reblis desacordado, t?o perplexo que seus olhos tremiam.

  Ele nunca pensou que veria seu Capit?o em uma condi??o t?o deplorável. Ele o enxergava n?o apenas como superior, mas como um pilar de for?a. O completo oposto dele em todos os sentidos, portanto invencível.

  E lá estava ele, à beira da morte. T?o vulnerável quanto ele.

  — ALGUéM CHAMA UM MéDICO! RáPIDO! — Gritou Felipa, correndo ao Capit?o.

  ...

  Algumas horas depois, na calada da noite.

  Uma batida seca ecoou à porta dos aposentos de élise.

  Ela fechou o último relatório financeiro sobre a escrivaninha e se levantou, irritada pela interrup??o. Ao abrir a porta, encontrou Rebbeka do outro lado do limiar, vestida de branco, fios de ouro bordando o tecido como se quisessem lembrá-la — e a qualquer um que a visse — de que agora pertencia à mais alta sociedade de Luther.

  — Rebbeka? — élise franziu o cenho, surpresa.

  — élise…

  — O que faz aqui? N?o deveria estar em Lua de Mel com Wanderson?

  Rebbeka hesitou, o olhar vacilando por um breve instante, como se aquela pergunta tivesse errado o alvo.

  — A Lua de Mel foi adiada. Você… deve ter ouvido falar do incidente na Catedral.

  — Ouvi, sim. Entre.

  Ela abriu passagem.

  O aposento era amplo e confortável: quarto espa?oso, escritório meticulosamente organizado, banheiro privativo. A escurid?o dominava o lugar, quebrada apenas pelo luar que entrava pela janela e pelo lampi?o solitário sobre a escrivaninha.

  élise sentou-se numa poltrona próxima, cruzando as pernas com naturalidade. Rebbeka permaneceu de pé.

  — Quer um chá? Posso acordar meu mordomo, se preferir. — O tom era casual demais para aquela hora.

  — N?o, obrigada.

  O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado.

  — Foi você quem mandou o assassino?

  élise n?o demonstrou surpresa. Apenas entrela?ou os dedos sobre o colo.

  — Por incrível que pare?a, n?o.

  — Ele poupou a mim e ao Wanderson… por algum motivo.

  Por um instante quase imperceptível, os olhos de élise se arregalaram.

  — Interessante… — murmurou. Ent?o sorriu. — Ainda assim, deveríamos agradecê-lo. Isso só acelera nosso plano.

  — Agradecê-lo? — a voz de Rebbeka tremeu. — élise, meu irm?o quase morreu.

  élise se levantou. A distancia entre elas diminuiu até desaparecer.

  — Mas n?o morreu — sussurrou, inclinando-se. — Morreu, minha amada?

  — N?o…

  Ela segurou o queixo de Rebbeka, obrigando-a a erguer o rosto.

  — Ent?o tudo o que você precisa fazer agora é ficar quieta — disse suavemente — e assistir à casa do seu marido desmoronar. Entendeu?

  — Sim… — respondeu Rebbeka, relutante, quase em um fio de voz.

  — ótimo.

  Ent?o élise a beijou.

Recommended Popular Novels